02 abril, 2025

Saudade mata não...

 Estava voltando do mercado e me deparei com ele: o meu último ex, quem eu não via faz quase um ano. Ele me reconheceu e me cumprimentou.

- Ana, quanto tempo!

Eu passaria direto se ele não tomasse a iniciativa, mas fui flagrada antes mesmo de ter a oportunidade. Respondi de volta, e conversamos brevemente sobre as atualizações das nossas vidas no ultimo ano. Ele trocou de emprego, eu terminei a faculdade, ele estava no mesmo apartamento, e eu tinha me mudado ha pouco tempo. Observei o efeito dele sobre mim, o cheiro da colônia e da camisa recém passada parecia a mesma, mas não fazia meu coração acelerar como antes. O fato dele tirar o cabelo da testa com dedo mindinho não parecia mais gracioso como era ha um ano atrás. A presença dele não me causava mais conforto e segurança, como já foi um dia. No final da conversa, ele se despediu e falou:

- Saudades ...

Por alguns segundos tive um flashback de tudo levou a gente ao término. Veio a tona as discussões, as crises de ciúmes, a incapacidade dele de tomar decisões importantes... será que ele também sentia saudade disso? Quando voltei das lembranças, meu coração batia da mesma intensidade de antes de vê-lo na rua. Não tinha raiva, rancor, tristeza, eram apenas lembranças, incapazes de me trazer nenhum sentimento. Então finalmente eu respondi:

- Bom te ver!

E como foi bom mesmo, bom saber que eu superei todas as mágoas, que eu conseguiu ficar feliz pelas conquistas dele, sem querer estar ao lado para comemorar. Foi muito bom saber que apesar de em algum momento ele ter sido a pessoa que eu mais amei na vida, hoje eu me encontrei apenas com uma lembrança do passado, que foi boa, mas não o suficiente para eu querer reviver.

27 janeiro, 2022

Quase um talvez

Estava perdida nos seus pensamentos, questionando se era memorável. Sabia que era inteligente, bonita para uns, bondosa para todos, mas indagava se seria marcante. Seria capaz de deixar algum legado após morrer? Sua memória seria capaz ultrapassar gerações, ou minimamente capaz de atravessar uma década? Ou pior, seria ela lembrada, ainda em vida, por alguém que não fosse do seu convívio diário? Ela se tocou da sua pequenez e chorou. Chorou sozinha na penumbra do quarto, pois percebeu que não era nada do que queria ser. Estava muito distante do que desejava, e foi camuflada por falsas conquistas. Por meias conquistas. Se deu conta de que toda a sua vida foi composta por quases e talvezes. Não conseguiu contar na estante um troféu, porque quase chegou na final. No seu celular não tinha nenhuma chamada, porque ela pensou em talvez ligar, mas não ligou. E no seu coração não tinha nenhum amor, porque durante toda a vida ela quase amou. 

Congelador



Congela a dor 
Numa câmera bem fria 
Sem deixar que se disperse
Ou que se estrague um dia

Do lado de fora aquece
Apodrece e esvazia
Empesteia o ambiente
Mas se acaba um dia

No frio se conserva 
Empedra e angustia
Num minuto adormece
Mas no seguinte agonia

Mas se congela para conservar 
Para que congelarias?
Conge-las para se enganar 
Ou para te servir de guia?

14 julho, 2019

Delírios da meia noite



Eu já estava deitada, mas não conseguia dormir. Até que abri os olhos e me deparei com a porta do meu guarda roupa aberta. Meu subconsciente perguntou:
-Está com medo do bicho-papão?
Eu ri e continuei o meu diálogo interno.
-Que nada!
Quando nós vamos crescendo os monstros que nos atormentam são outros. Olhar para a porta do meu guada roupa aberto só me faz lembrar que a conta de luz vai vir mais alta. O fato de eu não conseguir dormir só se concretiza por conta das preocupações que rondam minha mente. É o apartamento novo que tenho que alugar, a cidade nova que vou morar, o medo da rejeição na cidade grande, a situação política do país... ahh a política!
Os monstros parecem infinitos, quanto mais eu penso, mais espaços perecem existir na minha cabeça para se encherem de novos dilemas. 
Mas assim como o bicho-papão, os problemas tomam a proporção que eu permitir que eles tenham. Quanto mais eu penso, mais me afogo e no fim das contas nem lembro o que desencadeou tudo isso. Gasto a minha imaginação até o final. A essa hora já sei até a cor da parede da sala do apê. O nervosismo sumiu e virou sonho, no fim das contas o meu bicho-papão virou canção de ninar.

25 março, 2018

O medo do inevitável

   
O maior medo das pessoas ultimamente é se frustrar. Tamanha inocência acreditar que você é capaz de se blindar contra esse sentimento. A frustração além de inevitável é necessária. Necessária para te tornar humano, para te ensinar a seguir em frente e principalmente para te mostrar o quão pequeno é o seu poder sobre os planos do destino.
    Nas conversas entre amigas sobre relacionamento, o que eu mais tenho ouvido é: "mas eu não quero sofrer outra vez" ou "eu não quero me magoar de novo", como se a regra principal de um relacionamento é que ele tem prazo de validade e quando essa data chegar vai acabar tudo muito mal. Mas a grande questão é a priorização do medo. Antes de sair da fossa, você já está sofrendo com medo de entrar em outra, sem nem dar tempo para o seu corpo e seu psicológico sentir toda a tristeza e o sofrimento do término.
    O tempo vai passando e eis que do nada aparece alguém legal, com o papo bom, uma energia boa, disposta a se envolver e se aventurar numa vida a dois com você. Se tudo está fluindo tão bem, por que não tentar? Então você começa a sair, uma duas três vezes, daqui a pouco ela já está fraquentando sua casa, acabou conhecendo sua família e vocês estão super bem, levando tudo de forma leve e descontraída. De repente alguém usa a palavra namoro para definir a relação de vocês e você simplesmente gela."Namoro? Mas não é isso, a gente indo tão bem! E as minhas experiencias com namoro são péssimas, o ultimo então..." Você deposita TODAS as suas frustrações em uma única palavra. Se torna criança o suficiente para acreditar que uma única palavra, um único rótulo, será capaz de destruir tudo que vocês vêm construindo. Toda energia e dedicação gasta nesse relacionamento. Caso a relação acabe, foi por que simplesmente vocês assumiram o namoro e não por falta de dedicação, por falta de paixão ou simplesmente por divergência de interesses.
    Agora você começa a viver uma paranoia, reza para que as conversas nunca cheguem em "o que nós dois temos?", até que um dia, inevitavelmente, o papo para exatamente ali, onde você tanto temia. E o seu posicionamento é de que não quer viver um namoro agora, que está tudo tão bom de jeito que e não tem porque mudar isso. Tudo por conta de uma ferida mal curada, tudo por que você está projetando o seu passado no seu presente sem ao menos se preocupar em enxergar que a fila já andou, o tempo já passou e nem você, nem a/o atual são as mesmas pessoas do relacionamento passado.
    Você já se frustou e não morreu! Já está vivendo outra história, já está amando outra vez, já assumiu o papel de casal, mas segue achando que não está pronto pra outra, sendo que você JÁ ESTÁ em outra. A vida já te frustou novamente, mas dessa vez te presenteou com uma pessoa bacana, madura, capaz de assumir um relacionamento sério, sem medo e sem culpa. Porém seu medo de dar errado, de passar pela dor mais uma vez, faz com que você não seja suficiente para essa outra pessoa, e agora é a vez dela de se frustar negativamente com tudo que você não foi capaz de oferecer. Tudo que você deixou pra trás por não ter coragem de assumir pra si próprio o valor daquela relação.
    Parabéns! Você é o/a babaca da vez! E depois de tudo ter ido por água abaixo você se toca do quanto estava pronto, de que já estava imerso em um relacionamento e deixou tudo acabar com medo da frustração. Se xinga, se martiriza, mas agora você sofre, você sente a dor do fim e quando essa dor acaba você finalmente se apronta para uma nova pessoa. E tomara que essa nova pessoa também tenha sofrido e sentido o suficiente no fim do último término, para não depositar todo resto do último relacionamento em você e reiniciar o ciclo.
 
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